Ficção e verdade:

Uma reviravolta epistemológica na teoria Freudiana

(Portug.orig. article; Engl. Abstract)

 

Fiction and truth:

An epistemological turning point in Freudian theory.

By

P. H. de Moraes Branco Tavares

 

(Portug.) PALAVRAS-CHAVE: afreud, sedução, fantasia, realidade.
(Engl.) KEY WORDS: Freud, seduction, fantasy, reality.

 Abstract (Engl.):     Present article begins by investigating the development of the Freudian conception concerning the etiology of the neurosis using two investigative channels - biographical and theoretical. Studying the origins of neurosis and using “hysterical” patients as his main clinical model, the following certainty seems to be imposed on Freud: the origin of the suffering is of sexual nature. The most evident conclusion seems to be the one of a trauma caused by an experience of sexual molestation during the patient’s childhood perpetrated by an adult. This proposition generated fateful consequences for the author of the theory as it implied admission that sexual perversion among the Viennese was far more frequent than imagined, perhaps implying the inclusion of Freud’s own family. That generated severe criticism on the part of the society and of the doctors who considered this theory a "scientific fairy-tale" (Krafft-Ebing). Later however, Freud noticed that those experiences did not always actually happen, but were often fantasized by his patients. They were in fact a fiction, but a fiction experienced and lived through as “truth”. Between the paradigm of seduction and that of fantasy, a turning point took place in the psychoanalytical theory of trauma, which also radically changed the ultimate concepts of truth and of psychic reality.

Resumo (Portug.):    O presente artigo começa por investigar, através do teórico e do biográfico, o desenvolvimento da concepção Freudiana sobre a etiologia das neuroses. Estudando as origens da neurose e tendo dentre seus pacientes as histéricos como principal modelo clínico, uma certeza parece se impor, a origem de sofrimento é de caráter sexual. A conclusão mais evidente parece ser a de um trauma sofrido por uma experiência de molestação sexual na infância praticada por um adulto. Isto gerará conseqüências funestas para seu autor. Implicaria em admitir que a perversão sexual entre os vienenses seria muito freqüente, chegando a incluir sua própria família. Geraria uma crítica severa por parte da sociedade e por parte dos médicos que consideram sua teoria um conto-de-fadas científico. Mais tarde porém, Freud se dará conta de que aquelas experiências não eram necessariamente vivenciadas, e sim fantasiadas. Tratava-se sim de uma ficção, mas de uma ficção vivida como verdade.  Entre o paradigma da sedução e o da fantasia, corre uma reviravolta na teoria psicanalítica do trauma, mas isso também muda radicalmente o conceito Freudiano de verdade e de realidade psíquica.

ARTICLE:

Ao abordar as neuroses, tendo a histeria como seu modelo primeiro, o que despertava o interesse de Freud, mais do que meramente o tratamento, era saber de suas origens (SOUSA, 2001, p.107). Em sua primeira teoria sobre a etiologia das neuroses já há algo de revolucionário e extremamente controverso: A origem do mal era certamente de caráter sexual; disso ele estava convencido. Em 1896, aparece seu escrito Zur Ätiologie der Hysterie a ser lido ante a Verein für Psychiatrie und Neurologie; texto contendo sua primeira teoria sobre a causação da histeria: a teoria da sedução ou do trauma.Segundo tal teoria os pacientes sofreriam de reminiscências, teriam tido na infância alguma espécie de experiência sexual, junto a adultos estranhos, babás ou mesmo outras crianças (FREUD, 1896/1999). Estas vivências em si não teriam de imediato um caráter traumático, isso aconteceria, numa associação póstuma de outra vivência, que de alguma forma se remeterá a primeira."Chegamos a saber, que nenhum sintoma histérico pode advir de uma única experiência real, mas que, em todos os casos, a lembrança de experiências
mais antigas despertadas em associação com ela atua de forma conjunta na causação dos sintomas" (Idem, p.432, o grifo é meu).A apresentação destas conclusões terá conseqüências funestas para seu autor. Em primeiro lugar há as críticas despertadas pelos colegas médicos, que se tornam emblemáticas justamente pelo eminente estudioso da sexualidade na época, autor de Psychopathia Sexualis, publicada dez anos antes (ROUDINESCO & PLON, 1999, p.441). Richard von Krafft-Ebing, presidente da seção, teria dito que aquilo soava como um "conto de fadas científico" (in SOUSA, 2001, p.116).Outra conseqüência foi o esvaziamento de sua clínica, colocando o ainda jovem médico e pai de família em dificuldades financeiras. Sem falar que não tinha meios de comprovar suas teorias, já que sendo as atribuídas vivências primeiras, rechaçadas ao inconsciente, não teria como garantir suas ocorrências. Mas talvez a maior dificuldade fosse de ordem psíquica para Freud, pois, apesar de o texto falar em estranhos, babás e outras crianças, ele observa na clínica e em sua vida familiar que os mais freqüentes e
poderosos "sedutores" seriam os pais das crianças. Tal hipótese implicaria em denunciar uma boa parte dos pais de família vienenses, inclusive o seu próprio, como seviciadores sexuais de menores, ou pior ainda, de seus filhos.No entanto, parece que a supracitada crítica de Krafft-Ebing já trazia certos indícios do rumo do pensamento de Freud. Em sua correspondência com Wilhelm Fliess, refere-se em 6 de abril à importância das fantasias histéricas, ainda que sugerindo que estas são erguidas sobre fatos realmente ocorridos. "As fantasias provém de coisas que foram ouvidas, mas só posteriormente entendidas, e todo o material delas, é claro, é verdadeiro" (idem, p.117, o grifo é meu)A concretização de uma mudança aparecerá somente em 21 de setembro, em uma nova carta onde se encontra a célebre confidência: "...agora quero confiar-lhe, de imediato, o grande segredo que foi despontado em mim nestes últimos meses. Não creio mais em minha Neurótica."(ibidem,  p.119). Este fato provocará sérias mudanças na clínica Freudiana, sobretudo no que diz respeito à idéia de realidade. Freud continua em uma busca do verdadeiro, no entanto esta verdade não será mais buscada numa Wirklichkeit e sim numa Realität, ou seja, não se trata de buscar o empírico, o evento em sua essência e sim a força de verdade que, a partir dos eventos, se cria no sujeito. Isto, posto que este sujeito é sobre-determinado por seu inconsciente que não é capaz de distinguir verdade e ficção. A propósito, é nesta interseção entre verdade e ficção que passa a se estabelecer o sujeito Freudiano. "Pelo trabalho da análise o sujeito passa a fazer parte da fantasia que o constitui. Esta construção é uma ficção desta análise, porém é onde a ficção tem peso de causação, causação do sujeito" (MASCARELLO, p.88). Como assinalam Laplanche e Pontalis (1985, p.41) em seu texto sobre a fantasia ou fantasma, como preferem chamar a partir de Lacan, a partir da revisão sobre sua teoria da sedução, a própria questão da realidade precisa ser revista. "Visto que o real, em uma de suas modalidades, falta e revela nada mais ser que 'ficção` é preciso buscar alhures um real que funde esta ficção".

Fazendo referência a estes mesmos autores franceses, Renato Mezan (1989) assinala a problemática da "teoria" e da "ficção" no verbete do célebre Vocabulaire de la Psychanalyse, destinado ao esclarecimento do conceito Metapsicologia: Não me parece útil nem fiel ao espírito da Psicanálise, opor o ficcional ao teórico, como se o primeiro fosse puramente imaginativo, e o segundo cientificamente rigoroso; nem, como se tornou freqüente em certos meios, inverter a valoração e declarar que o "teórico" é pernicioso, porque denota intelectualização e favorece as resistências contra à psicanálise, enquanto
o "ficcional" estaria próximo do afetivo, sendo, portanto, "não saturado" e em última instância, mais verdadeiro (MEZAN, 1989 p.93). Este par de opostos (ficção e teoria) são ao longo da história da psicanálise objeto de polêmica, posto que levantam o debate sobre o caráter científico da psicanálise. Sua Metapsicologia, tratando de objetos como o inconsciente, as pulsões, o recalcamento, o eu, o isso, o narcisismo, não seria um conto de fadas científico? Não seriam castelos construídos no ar? Não seria uma revalorização dos saberes ocultos ou ocultistas? O método de instigação, especulação e construção Freudianos, seguindo o raciocínio de Roudinesco (1999), se colocam sim em ruptura com o saber oficial da época no sentido de dar um estatuto racional a fenômenos outrora marginalizados pela ciência oficial. Se os sonhos, os atos falhos, os delírios eram excluídos do saber oficial pela ciência por seu caráter aparentemente irracionais, Freud busca uma aproximação teórica destes, longe de qualquer ocultismo, e sim pela via da razão. O mesmo acontece no campo da fantasia, termo que não tem um tratamento unívoco ao longo de seu tratamento na teoria. Segundo Mascarello (2002), faz-se necessária sua aproximação em três níveis:
1 - No sentido corrente, "são os 'sonhos diurnos`, cenas, episódios,
romances ficções, que o sujeito constrói e conta  a si mesmo em estado de
vigília."
2 - A partir da expressão "fantasia inconsciente" que "serve para designar
[tanto] um devaneio pré-consciente que o sujeito constrói e do qual poderá
ou não tomar consciência, [quanto] elemento precursor(escalão prévio), dos
sintomas histéricos em conexão com os sonhos diurnos."
3 - "Numa relação direta e exclusiva como o inconsciente, ligada ao desejo,
como ponto de partida para a formação do sonho e outras formações do
inconsciente (sintoma, ato-falho e chiste)."
No sexto capítulo da Traumdeutung (Interpretação dos Sonhos), no sub-capítulo A Elaboração Secundária, Freud se propõe a uma explanação sobre a problemática dos sonhos diurnos. Ao utilizar isto que seria um neologismo no alemão - Tagtraum (Sonho do dia / diurno) -, puxa uma nota de rodapé que,
sem maiores esclarecimentos assinala em francês e inglês, respectivamente o seguinte: "rêve, petit roman - day-dream, story" (1900 p.495). Uma possível elucidação seria a analogia que é feita entre os sonhos diurnos e as fantasias, que estariam tanto na gênese dos sintomas histéricos (FREUD, 1908) assim como na das criações literárias.(FREUD, 1907). Se nas colocações da Traumdeutung, fantasia e devaneios ou sonhos diurnos parecem, ora se tratarem de sinônimos, ora como uma analogia da primeira ao que seria o segundo na vigília, em seu artigo Der Dichter und das Phantasieren (O escritor imaginativo e o fantasiar) (1907b), tal analogia seria a seguinte:
Os devaneios ou sonhos diurnos formariam o enredo ao argumento da fantasia. "O escritor imaginativo suavisa o caráter dos sonhos diurnos egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias." (idem, p.223) É curioso observarmos, portanto esta aproximação que Freud tem com os ficcionistas. Ele recorre a sua própria teoria para dar conta do que motiva as poesias, romances, dramas e tragédias destes, e vai buscar nelas as metáforas ou modelos para suas construções metapsicológicas e até mesmo seu modelo de sujeito. Lembrando a recém-apresentada citação de Laplanche e Pontalis, Freud precisa buscar "um real que funde a ficção". Este real estará expresso no modelo do Édipo, por um lado e de Hamlet por outro. Isto é o que faz Roudinesco (1999) denominar o homem, na noção Freudiana como "homem trágico", em oposição ao "homem comportamental", da psicologia experimental e da psiquiatria. Esse homem trágico, encontramos sua estrutura em Édipo e Hamlet. Assim como o tirano de Sófocles sofre seu destino como um flagelo que o torna outro de si mesmo, o príncipe de Shakespeare o internaliza como uma imagem repetitiva do mesmo. Tragédia do desvelameto de um lado, drama do recalcamento , do outro. (p.153). Ai cabe fazer uma ponte com o que Garcia-Roza apresenta como o enigma que a psicanálise se coloca em sua busca da verdade, a verdade do desejo. "O enigma se apresenta no fato de que somos dois sujeitos, um dos quais nos é inteiramente desconhecido" (1990, Introdução.) Em psicanálise, portanto, a verdade desvelada a Édipo e o engano manifesto por Hamlet, não são excludentes, são complementares. A verdade deste sujeito do inconsciente, na clínica psicanalítica, se apresenta, não nos enunciados do discurso e sim em seus erros e tropeços. Quando o sujeito "se engana", a partir dos atos falhos, está na verdade se revelando ou des-velando. Os atos falhos do consciente são, portanto, como afirma Lacan (1954 p.302), atos bem sucedidos, "(...) nossas palavras que tropeçam, são palavras que confessam, elas, revelam uma verdade de detrás". A fantasia como o que dá corpo ao mito ou drama de cada sujeito é, a partir deste entendimento, o que há de mais verdadeiro no sujeito na concepção Freudiana; é a via de realização de seu desejo.

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